No outono do ano 815 da
fundação da cidade (que seria o ano 62 d.C. pelo nossos sistema de medir o
tempo), Esculápio Cultelo, médico romano, escreveu a seguinte carta a seu
sobrinho que estava com o exército na Síria:
Caro Sobrinho,
Há poucos dias fui chamado a atender um doente
chamado Paulo. Ele parecia ser um cidadão romano de ascendência judia, homem
instruído e de maneiras agradáveis. Disseram-me que estava em Roma por causa de
um processo judicial, um apelo lançado por um de nossos tribunais provinciais,
de Cesaréia ou alguma outra cidade do Mediterrâneo oriental. Descreveram-no
como um sujeito “desequilibrado e violento”, que fazia discursos contra o povo
e contra a lei. Quanto a mim, achei-o muito inteligente e extremamente honesto.
Um amigo meu, que esteve com o exército na Ásia
Menor, afirma que ouviu falar dele em Éfeso, onde Paulo teria pregado sermões
sobre um novo e estranho deus. Perguntei a meu paciente se isso era verdade e
se ele de fato incitara o povo rebelar-se contra a autoridade de nosso
bem-amado imperador. Paulo respondeu-me que o reino de que falava não era deste
mundo, e me disse muitas coisas estranhas que não compreendi, mas que se deviam
provavelmente aos delírios de febre.
Sua personalidade causou sobre mim uma forte
impressão, e lamentavelmente ele foi morto na estrada de Óstia há poucos dias.
Por isso escrevo-te esta carta. Quando visitares Jerusalém, quero que descubras
algo sobre meu amigo Paulo e sobre o estranho profeta judeu que parece ter sido
seu mestre. Nossos escravos estão ficando entusiasmados com esse dito Messias,
e alguns deles, que ousaram falar abertamente sobre o novo reino (seja isto o
que for), foram crucificados. Gostaria de saber a verdade acerca desses
rumores. Sempre dedicado a ti,
Teu Tio,
Esculápio Cultelo.
Seis semanas depois,
Gládio Ensa, o sobrinho, capitão da VII Infantaria Gálica, enviou ao tio a
seguinte resposta:
Caríssimo Tio,
Recebi tua carta e cumpri tuas instruções.
Há duas semanas, nossa brigada foi enviada à
Jerusalém. Diversas revoluções aconteceram nos últimos cem anos, e quase nada
resta da antiga cidade. Já estamos aqui há um mês e amanhã marcharemos a Petra,
onde algumas tribos árabes têm causado problemas. Tomarei esta noite para
responder às tuas perguntas, mas por favor não esperes que eu te forneça um
relato detalhado.
Falei com a maioria dos velhos desta cidade, mas
poucos foram capazes de me dar informações concretas. Há alguns dias, um
mascate veio ao acampamento. Comprei dele algumas azeitonas e lhe perguntei se
ouvira falar do famoso Messias que fora executado quando ele era jovem. Disse
que se lembrava claramente do acontecido, pois seu pai o levara ao Gólgota (uma
colina fora da cidade) para assistir à execução e mostrar-lhe o que acontecia
com os inimigos da lei do povo judeu. Deu-me o endereço de um certo José, que
foi amigo pessoal do mestre; e me disse que, se quisesse saber mais, eu deveria
ir visitá-lo.
Hoje pela manhã, fui à casa de José. Era um homem
bastante velho, que fora pescador num dos lagos de água doce. Sua memória era
clara, e dele por fim obtive um relato relativamente preciso do que aconteceu
naquela época tumultuada, antes que eu nascesse.
Tibério, nosso grande e glorioso imperador,
sentava-se então no trono, e um funcionário de nome Pôncio Pilatos era
governador da Judéia e da Samaria. José sabia pouco a respeito de Pilatos.
Parece ter sido um funcionário honesto, que deixou atrás de si uma boa
reputação como administrador da província. No ano 783 ou 784 (José se esquecera
da data exata) Pilatos foi chamado a Jerusalém por conta de um tumulto.
Dizia-se que um certo jovem (filho de um carpinteiro de Nazaré) estava
planejando uma revolução contra o governo romano. O estranho é que nossos
próprios espiões, que geralmente estão bem informados, aparentemente nada
sabiam a respeito disso; e, quando investigaram o assunto, relataram que o
carpinteiro era um excelente cidadão e que não havia motivo para intimá-lo.
Porém, segundo José, os antiquados líderes da fé judaica estavam muito
aborrecidos. Odiavam a popularidade que aquele homem granjeara junto às massas
dos hebreus pobres. O “Nazareno” (assim disseram a Pilatos) havia afirmado
publicamente que um grego, um romano ou mesmo um filisteu, que procurasse levar
uma vida decente e honrada, estão tão bom quanto um judeu que passasse o dia a
estudar a antigas leis de Moisés. Pilatos, ao que parece, não se deixou
impressionar por esse argumento e, quando as turbas ao redor do templo
ameaçaram linchar Jesus e matar todos os seus seguidores, decidiu ficar com o
carpinteiro sob sua custódia para salvar-lhe a vida.
Pilatos não parece ter compreendido a verdadeira
natureza do conflito. Sempre que pedia aos sacerdotes judeus que expusessem
suas queixas, eles gritavam “heresia” e “traição” e ficavam terrivelmente
eufóricos. Por fim, segundo me contou José, Pilatos mandou trazerem Josué (era
esse o nome do Nazareno, mas os gregos que vivem nesta parte do mundo sempre o
chamam de Jesus) para interrogá-lo pessoalmente. Falou com ele por várias
horas. Perguntou-lhe sobre as “doutrinas perigosas” que teria pregado às
margens do mar da Galileia. Mas Jesus lhe respondeu que nunca falara de
política. Não estava interessado no corpo do homem, mas em sua alma. Queria que
todos vissem a seus próximos como irmãos e amassem um único deus, o pai de
todos os seres.
Pilatos, que provavelmente era versado nas doutrinas
dos estóicos e dos outros filósofos gregos, não parece ter descoberto nada de
sedicioso na fala de Jesus. Segundo meu informante, fez mais uma tentativa de
salvar a vida do bondoso profeta. Ficava adiando a execução. Enquanto isso, o
povo judeu, movido à fúria pelos sacerdotes, ficou incontrolável. Já houvera
muitos tumultos em Jerusalém antes disso, e eram poucos os soldados romanos
acampados nas proximidades. Relatava-se às autoridades romanas em Cesareia que
Pilatos “caíra vítima dos ensinamentos do Nazareno”. Por toda a cidade
circulavam petições para que Pilatos fosse destituído de seu cargo por ser
inimigo do imperador. Sabes que nossos governadores têm ordens rigorosas de
evitar todo rompimento manifesto com nossos súditos estrangeiros. Para salvar o
país da guerra civil, Pilatos decidiu por fim sacrificar seu prisioneiro Josué,
que se portou com grande dignidade e perdoou todos os que o odiavam. Foi
crucificado em meio aos gritos e aos risos das multidões de Jerusalém.
Foi isso o que José me contou, com lágrimas correndo
pelas faces envelhecidas. Dei-lhe uma moeda de ouro antes de ir embora, mas ele
a recusou e me disse que a desse a alguém mais pobre. Fiz-lhe também algumas
perguntas sobre o teu amigo Paulo. José conhecera ligeiramente. Parece ter sido
um fabricante de tendas que abandonou a profissão para pregar as palavras de um
deus amoroso e misericordioso, muito diferente do Jeová de que os sacerdotes
judeus nos falam o tempo todo. Depois disso, para que Paulo viajou muito por
toda a Ásia Menor e a Grécia, dizendo aos escravos que todos eles são filhos de
um único pai amoroso e que a felicidade aguarda a todos, pobres e ricos, que
procurassem viver honestamente e fazer o bem aos sofredores e aos miseráveis.
Espero ter respondido satisfatoriamente às tuas
perguntas. No que diz respeito à segurança do Estado, a história toda me parece
inofensiva. Mas nós, romanos, nunca fomos capazes de compreender o povo desta
província. Lamento por terem executado o teu amigo Paulo. Sinto falta de casa e
abraço-te
Teu diligente sobrinho,
Gládio Ensa.
Referência
bibliográfica: LOON, Hendrik Willem Van. A história da humanidade : a história
clássica de todas as eras para todas as eras, atualizada em nova versão para o
século XXI. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
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