segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Modernidade Líquida - Pessoas Coisificadas


Segundo Zygmunt Bauman, estamos vivendo a pós-modernidade, intitulada por ele de “Modernidade Líquida”. Entende-se por modernidade líquida o atual momento da sociedade.
É utilizada esta linguagem figurada em alusão à fluidez do líquido. “O que todas essas características dos fluidos mostram, em linguagem simples, é que os líquidos, diferentemente dos sólidos, não mantêm sua forma com facilidade. Ao descrever os sólidos, podemos ignorar inteiramente o tempo; ao descrever os fluidos, deixar o tempo de fora seria um grave erro. Descrições de líquidos são fotos instantâneas, que precisam ser datadas”.
Assim ele conclui o porquê da adoção de tal termo: “Essas são razões para considerar ‘fluidez’ ou ‘liquidez’ como metáforas adequadas quando queremos captar a natureza da presente fase, nova de muitas maneiras, na história da modernidade”.
De forma oposta aos líquidos estão os sólidos. Estes representam os laços culturais, sociais, religiosos, familiares e demais formas de interação social. Os sólidos são marcados por sua rigidez, inalterabilidade e estabilidade. Peguemos um exemplo: a família.
O que é uma família hoje em dia? Há filhos, filhas... Meus filhos, nossos filhos; a paternidade e a maternidade, o núcleo da vida familiar, estão começando a se desintegrar nessas ondas de divórcios... “Avôs e avós são incluídos e excluídos sem meios de participar nas decisões de seus filhos e filhas. Do ponto de vista de seus netos, o significado das avós e dos avôs tem que ser determinado por decisões e escolhas individuais”.
Ora, a família tida como ‘tradicional’ (mãe, pai e filhos...) está sob ataque. Não existem mais laços ‘sólidos’, a pós-modernidade exige e trabalha para desmoronar esses moldes e colocar outro no lugar. A destruição do sólido é a sua realização e o seu prazer. Num outro livro de Bauman, “Vida para Consumo: a transformação das pessoas em mercadoria”, é destacado que os símbolos com assaz durabilidade, hoje, são indesejáveis e as pessoas buscam pelo novo, pelo progresso... Ora, se antes era exaltado um carro que não ‘estragava’, que era grande e durável; hoje é visto como ultrapassado, dando lugar de desejo aos luxuosos e tecnológicos automóveis, pequenos, rápidos e de fácil venda (ou melhor, de fácil descartabilidade). Ficar ‘estagnado’ é sinônimo de maldição para as pessoas modernas. Ter uma roupa que não esteja de acordo com os padrões da ‘moda’ é estar fadado à infelicidade.
A velocidade transformadora é muito grande, e, portanto, característico da modernidade líquida. Hoje, sem problemas é possível uma família possuir dois pais... ou duas mães.... vai entender. Hoje se pode manifestar numa programação da Jornada Mundial da Juventude, organizada pela Igreja Católica, insultando os fiéis, masturbando-se com crucifixos e nada acontecer... É a sociedade do tudo pode... Tudo pode, só não pode ficar ‘parado’. Temos, portanto, mais um exemplo de ataque ao sólido... Ataque à religião. Ser ateu é a onda do momento, sobretudo nas Universidades. Os ‘crentes’, comumente são vistos como alienados, domados e presos aos sistemas religiosos.

Michel Foucault utilizou o projeto do Panóptico de Jeremy Bentham como arquimetáfora do poder moderno. O Panóptico era uma estrutura circular com uma torre no centro, e os aprisionados ficavam em celas individuais, sendo monitorados pela sentinela. Os vigilantes viam os presos, mas os presos não viam os vigilantes. As instalações e a facilidade de movimento dos vigias eram a garantia de sua dominação. “O domínio do tempo era o segredo do poder dos administradores – e imobilizar os subordinados no espaço, negando-lhes o direito a movimento e rotinizando o ritmo a que deviam obedecer era a principal estratégia em seu exercício do poder. Por outro lado o Panóptico apresentava suas desvantagens. Era dispendiosa a manutenção da construção, a construção de novos Panópticos, a contratação de vigias e não menos importante, o sistema exigia a presença contínua dos administradores perto dos administrados, limitando-os relativamente ao mesmo espaço.
Com o advento da ‘modernidade líquida’, o poder pode se mover com a velocidade do sinal eletrônico. Assim, o poder se tornou verdadeiramente extraterritorial, não mais limitado, nem mesmo desacelerado pela resistência do espaço. O longe e o perto não fazem diferença. Veja os detentores do poder não precisam mais se ocupar das preocupações que o Panóptico apresentava. No período Panóptico, os administradores tinham de estar lá! No período ‘pós-panóptico’, importa é que as pessoas que operam as alavancas do poder de que depende o destino dos parceiros menos voláteis na relação podem fugir do alcance a qualquer momento – para a pura inacessibilidade. Ora, se antes o administrador estava ‘preso’ junto aos administrados; agora se pode (com o contínuo progresso tecnológico) controlar tudo de longe. O segredo do poder consiste, agora, na agilidade, na fuga, na malícia. Percebemos isso com a utilização dos Drones (aviões não tripulados), nos mísseis de longa distância... e de forma mais presente, nas grandes indústrias mundiais, mídias e governos...
Concluo que essa ‘fluidez’ não passa de uma pseudo-liberdade. Essas pessoas são instrumentos nas mãos dos ‘grandes administradores’ que atacam e fogem, e para trás deixam a sua destruição. Vivemos uma “construção desconstrutiva”, em que são atacados princípios milenares e fragilizados nos últimos dois ou três séculos. Igrejas virando boates... casamentos de mentira... enganos e destruições na vida das pessoas. Voltemos às raízes do Evangelho, ao Evangelho da simplicidade.
Sobre o Evangelho, discutiremos numa outra oportunidade.
Recomendo a leitura dos textos do grande Bauman. 


Graça e Paz! 

Nenhum comentário:

Postar um comentário