Segundo Zygmunt
Bauman, estamos vivendo a pós-modernidade, intitulada por ele de “Modernidade
Líquida”. Entende-se por modernidade líquida o atual momento da sociedade.
É utilizada esta
linguagem figurada em alusão à fluidez do líquido. “O que todas essas
características dos fluidos mostram, em linguagem simples, é que os líquidos,
diferentemente dos sólidos, não mantêm sua forma com facilidade. Ao descrever
os sólidos, podemos ignorar inteiramente o tempo; ao descrever os fluidos,
deixar o tempo de fora seria um grave erro. Descrições de líquidos são fotos
instantâneas, que precisam ser datadas”.
Assim ele conclui o
porquê da adoção de tal termo: “Essas são razões para considerar ‘fluidez’ ou
‘liquidez’ como metáforas adequadas quando queremos captar a natureza da
presente fase, nova de muitas
maneiras, na história da modernidade”.
De forma oposta aos
líquidos estão os sólidos. Estes representam os laços culturais, sociais,
religiosos, familiares e demais formas de interação social. Os sólidos são
marcados por sua rigidez, inalterabilidade e estabilidade. Peguemos um exemplo:
a família.
O que é uma família
hoje em dia? Há filhos, filhas... Meus filhos, nossos filhos; a paternidade e a
maternidade, o núcleo da vida familiar, estão começando a se desintegrar nessas
ondas de divórcios... “Avôs e avós são incluídos e excluídos sem meios de
participar nas decisões de seus filhos e filhas. Do ponto de vista de seus
netos, o significado das avós e dos avôs tem que ser determinado por decisões e
escolhas individuais”.
Ora, a família tida
como ‘tradicional’ (mãe, pai e filhos...) está sob ataque. Não existem mais
laços ‘sólidos’, a pós-modernidade exige e trabalha para desmoronar esses
moldes e colocar outro no lugar. A destruição do sólido é a sua realização e o
seu prazer. Num outro livro de Bauman, “Vida para Consumo: a transformação das
pessoas em mercadoria”, é destacado que os símbolos com assaz durabilidade,
hoje, são indesejáveis e as pessoas buscam pelo novo, pelo progresso... Ora, se
antes era exaltado um carro que não ‘estragava’, que era grande e durável; hoje
é visto como ultrapassado, dando lugar de desejo aos luxuosos e tecnológicos
automóveis, pequenos, rápidos e de fácil venda (ou melhor, de fácil
descartabilidade). Ficar ‘estagnado’ é sinônimo de maldição para as pessoas
modernas. Ter uma roupa que não esteja de acordo com os padrões da ‘moda’ é
estar fadado à infelicidade.
A velocidade
transformadora é muito grande, e, portanto, característico da modernidade
líquida. Hoje, sem problemas é possível uma família possuir dois pais... ou
duas mães.... vai entender. Hoje se pode manifestar numa programação da Jornada
Mundial da Juventude, organizada pela Igreja Católica, insultando os fiéis,
masturbando-se com crucifixos e nada acontecer... É a sociedade do tudo pode...
Tudo pode, só não pode ficar ‘parado’. Temos, portanto, mais um exemplo de
ataque ao sólido... Ataque à religião. Ser ateu é a onda do momento, sobretudo
nas Universidades. Os ‘crentes’, comumente são vistos como alienados, domados e
presos aos sistemas religiosos.
Michel Foucault
utilizou o projeto do Panóptico de Jeremy Bentham como arquimetáfora do poder
moderno. O Panóptico era uma estrutura circular com uma torre no centro, e os
aprisionados ficavam em celas individuais, sendo monitorados pela sentinela. Os
vigilantes viam os presos, mas os presos não viam os vigilantes. As instalações
e a facilidade de movimento dos vigias eram a garantia de sua dominação. “O
domínio do tempo era o segredo do poder dos administradores – e imobilizar os
subordinados no espaço, negando-lhes o direito a movimento e rotinizando o
ritmo a que deviam obedecer era a principal estratégia em seu exercício do
poder. Por outro lado o Panóptico apresentava suas desvantagens. Era dispendiosa
a manutenção da construção, a construção de novos Panópticos, a contratação de
vigias e não menos importante, o sistema exigia a presença contínua dos
administradores perto dos administrados, limitando-os relativamente ao mesmo
espaço.
Com o advento da ‘modernidade
líquida’, o poder pode se mover com a velocidade do sinal eletrônico. Assim, o
poder se tornou verdadeiramente extraterritorial, não mais limitado, nem mesmo
desacelerado pela resistência do espaço. O longe e o perto não fazem diferença.
Veja os detentores do poder não precisam mais se ocupar das preocupações que o
Panóptico apresentava. No período Panóptico, os administradores tinham de estar
lá! No período ‘pós-panóptico’, importa é que as pessoas que operam as
alavancas do poder de que depende o destino dos parceiros menos voláteis na
relação podem fugir do alcance a qualquer momento – para a pura
inacessibilidade. Ora, se antes o administrador estava ‘preso’ junto aos
administrados; agora se pode (com o contínuo progresso tecnológico) controlar
tudo de longe. O segredo do poder consiste, agora, na agilidade, na fuga, na
malícia. Percebemos isso com a utilização dos Drones (aviões não tripulados),
nos mísseis de longa distância... e de forma mais presente, nas grandes
indústrias mundiais, mídias e governos...
Concluo que essa
‘fluidez’ não passa de uma pseudo-liberdade. Essas pessoas são instrumentos nas
mãos dos ‘grandes administradores’ que atacam e fogem, e para trás deixam a sua
destruição. Vivemos uma “construção desconstrutiva”, em que são atacados
princípios milenares e fragilizados nos últimos dois ou três séculos. Igrejas virando boates... casamentos de mentira... enganos e destruições na vida das pessoas. Voltemos às raízes do Evangelho, ao Evangelho da simplicidade.
Sobre o Evangelho, discutiremos numa outra oportunidade.
Recomendo a leitura dos textos do grande Bauman.
Graça e Paz!
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